Um evangelho anormal

J. Lee Grady

Meu mundo foi sacudido violentamente em janeiro, quando dediquei algum tempo entrevistando líderes do movimento ilegal da “igreja nas
casas” da China.

Durante cinco dias orei, louvei e participei de refeições simples com estes santos preciosos, a maioria dos quais passou anos solitários nas prisões comunistas pelo crime de pregarem o evangelho. À medida que eu ouvia seus relatos em primeira mão de milagres, e do tratamento cruel que receberam dos guardas policiais, senti como se
tivesse encontrado pela primeira vez uma fé parecida com aquela que
vemos no Novo Testamento. Quando retornei aos Estados Unidos comecei
a imaginar se o que nós chamamos de cristianismo aqui tem alguma
semelhança com o verdadeiro produto.

Uma líder me explicou que supervisiona 5.000 igrejas numa área
rural. “Você é um bispo ou um apóstolo?” perguntei, tentando entender
os termos que eles usam.
“Nós não usamos títulos”, a mulher me explicou. “Nós simplesmente nos
chamamos de irmão e irmã.”

Os 80 crentes que conheci são responsáveis por mais de 35 milhões de
cristãos na China. Este é um número impressionante. Mas nenhum deles
chegou ao nosso local de reunião numa limousine, nem qualquer um
deles era seguido por um grupo de guarda-costas e publicitários.
Muitas destas pessoas vivem como fugitivos, mas os seus rostos
estavam radiantes de alegria.

O sr.Yu, que é o nome que vou usar para ele, é como o apóstolo Paulo
da China. Ele viu pessoas ressuscitarem de entre os mortos, e uma vez
ele viu Deus paralizando sobrenaturalmente um oficial do governo que
ameaçava suspender uma reunião evangelística ao ar livre. Mas o sr.Yu
não esperava nenhum tratamento especial ao passar algum tempo comigo
e com seus colegas em janeiro. Ele usava um simples camisa de manga
curta, comeu o mesmo peixe com arroz que nós comemos, e comparecia
para a oração como qualquer outra pessoa, antes de cada reunião.
Geralmente ele tomava seu assento no fundo da sala.

Estas pessoas choravam cada vez que orávamos pela China. Elas estavam
dominadas por um sentimento de urgência espiritual. Muitos deles
estão ansiosos por uma mudança política em seu país, não para que
tenham liberdade para se mudarem para os Estados Unidos, ou para que
possam comprar uma casa, mas para que possam enviar missionários para
países muçulmanos vizinhos e fechados como o Casaquistão ou o
Uzbequistão.

Eu senti vergonha quando voltei para casa. A humildade dos meus novos
amigos chineses expôs a realidade do meu orgulho. A sua fé infantil
revelou o quanto eu confio na tecnologia, na educação e nos ídolos do
materialismo ocidental. A sua contagiante paixão pelo cumprimento da
Grande Comissão forçou-me a enxergar o meu autocentrismo.

Estou cheio do nosso ramo anormal e americanizado do cristianismo. É
tão impotente quanto é letal. Depois de passar esse tempo com meus
irmãos e irmãs da China, compreendi que muito do que vejo na igreja e
até daquilo que publicamos na nossa revista (a revista norte-
americana Charisma) dá náuseas para Deus.

Quão desesperadamente precisamos do Espírito Santo, nosso Refinador,
para que venha nos despojar dos nossos títulos, nossas limousines,
nossos lugares nas primeiras fileiras nos templos e nossas mensagens
do tipo “que vantagem posso tirar para mim”! Precisamos voltar à
simples humildade!

Que Deus nos guarde de algum dia exportarmos para outros países um
evangelho adulterado e centrado no homem. Peçamos ao Refinador que
envie seu fogo e destrua nossa escória de tal modo que possamos
experimentar em nosso país um avivamento estilo chinês. O que eles
têm é genuíno. O que temos aceitado é uma imitação barata.

J. Lee Grady é editor da revista CHARISMA.
Este artigo foi traduzido de um editorial publicado na Revista
Charisma de março/2001

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *